Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006

Blogosfera - Motivações Básicas III

[ 0012 ]

Quase sempre íntima da Informação Alternativa é a Opinião.

INFORMAÇÃO/OPINIÃO

Os bloggers exercem com facilidade o seu direito à opinião e, não raras vezes, esta aparece disfarçada de informação. Quando assim é, torna-se numa falácia e influi a retina dos olhos menos precavidos. Porque nisto da blogosfera, como na vida, é preciso olhar com olhos de ver.

Uma vez mais vou referir que este tipo de blogs, recorrendo à informação distribuída, nem sempre divulgam a fonte e optam assim por "escrever artigos originais" e opiniões falsamente fundadas. Não considero, porém, que uma vez cumpridos estes requisitos, se possa exigir o mesmo tipo de responsabilidade que aos blogs considerados de informação.

Como exemplo das múltiplas escolhas de estilo que podem ser tomadas ao escrever um blog de opinião, chamo aqui um dos dois únicos blogs melhores do que este, o multifacetado e intelectual ABRUPTO

BLOGOSFERA CONTRA PROMESSOSFERA: O BLOGUITICA continua a fazer a pergunta certa no tempo certo : "O Projecto MIT não está esquecido, pois não?" Se não fosse o infantilismo competitivo de muita imprensa escrita, que não quer parecer ir atrás dos blogues, já a mesma pergunta teria sido feita aos responsáveis pelas promessas governamentais numa vontade de esclarecer e informar que é suposto ser a essência do seu papel em democracia, venha a pergunta de onde vier. Se o BLOGUITICA deixasse de insistir durante dois ou três dias, e voltasse o rápido esquecimento em que vivemos, já os jornalistas se sentiriam à vontade para fazer a pergunta sem parecer "ir atrás" dos blogues. O mesmo se passou no caso da OTA, não fosse um órgão da imprensa digital sem preconceitos ter abordado Mário Lino com a pergunta que os jornais não queriam fazer. Depois foi o que se viu. A questão central aqui é que um esclarecimento sobre o que se passa com o Projecto MIT é mais que devido, até porque já passou o prazo para se saber alguma coisa. Está na altura de acabar com pruridos territoriais e perceber que hoje há, queira-se ou não, um contínuo comunicacional com os blogues e uma pergunta certa e justa na blogosfera é também uma pergunta certa e justa na atmosfera e não se pode passar ao lado.

Este é o estilo de edição mais usual nos blogs de opinião. Deixa-se a opinião escarrapachada no monitor com um simples link para o que pode ou não ser o esclarecimento cabal da opinião deixada. Caberá ao leitor a decisão de querer conferir in loco a origem da opinião deixada. Se não me engano, quem está a ler neste momento este post não foi ao Abrupto nem ao Bloguítica.

Sem querer duvidar das boas intenções do blogger que opta por este estilo, não me parece correcto este tipo de post. Se por um lado ele obriga a que o leitor vá ao local de origem [é essa, supostamente a intenção de tal tipo de post ], por outro lado quase de certeza que tal não irá acontecer. Que o digam os proprietários dos originais mediante a análise dos "referrers" a que, provavelmente, têm acesso. Trata-se, para mim, de uma talvez não intencional hipocrisia esta coisa de querer manter salvaguardadas as fontes e o acesso directo a estas.

Bem-vindo de férias ó Almocreve das Petas :

"Depois de afagos de veraneio pendurámos a lembrança, em local decente. Nas muitas noites-ligados-a-dias sem novelas da paróquia, sem ambição de coisa alguma e em salutar "metafísica do ócio", a iluminação teria de ser total. E, na verdade, foi a nossa abastança virtuosa. A "estrita" observância a paixões deliciosas e sentimentos d'ócio peculiares, fez prolongar a visitação extraordinária, assim a modos "como gatos espapaçados ao sol" [M. Bandeira]. As instruções, os preceitos e as exortações do vate Sócrates & sua imprensa amestrada, não nos importunaram. Fomos piedosamente poupados à erudição doméstica. E, claro está, podemos dizer, humildemente ... que "cumprimos"!"

Aqui José Pacheco Pereira opta pelo estilo "Olhem lá, leiam isto porque eu achei interessante, por isso é mesmo interessante", ou seja, basta a publicação do post de outrém, com a devida referência e... mais nada. Eu também faço isso. Muitas vezes. O que não quer dizer que esteja correcto.

A crítica de Eduardo Cintra Torres no Público ao tratamento noticioso dos incêndios na RTP assenta em dois “factos” (1) ;

- um, a existência de ordens, ou instruções oriundas do Gabinete do Primeiro Ministro à direcção editorial da RTP quanto ao tratamento dos fogos

(« as informações de que disponho indicam que o gabinete do primeiro-ministro deu instruções directas à RTP para se fazer censura à cobertura dos incêndios: são ordens directas do gabinete de Sócrates».)

- dois, a minimização dos incêndios nos telejornais, em particular num dia em que graves incêndios ocorriam a Norte

“E o Telejornal (RTP)? Não fez nenhum directo. Remeteu os incêndios para a 18ª notícia de 28, já depois do desporto. As três únicas notícias sobre incêndios activos foram tão breves que totalizaram menos tempo (1m50) do que a convalescença de Fidel Castro (2m16) ou a vitória dum João Cabreira na etapa do dia da Volta (2m18). As outras três notícias relacionadas com fogos eram todas positivas: um inventor dum autotanque; uma visita de bombeiros alemães a Vila Real; a entrega de 16 jipes pelo Instituto de Conservação da Natureza aos parques naturais (mas antes, sobre o incêndio no Parque Nacional da Peneda-Gerês, o Telejornal falou duas vezes em Arcos de Valdevez e só no meio da notícia referiu uma vez o Parque)”.


Quanto ao primeiro, Eduardo Cintra Torres terá certamente que ir mais longe no seu esclarecimento, visto que parte de uma situação ambígua entre ser jornalista e dever preservar as suas fontes e emitir um comentário crítico que em principio não é uma notícia. Se tal “facto” (as instruções do Gabinete) foi resultado de uma actividade jornalística normal ele deveria ter sido pela sua relevância incluído no noticiário político do Público e só depois, ou em simultâneo, comentado na coluna de crítica. O estatuto de colunas de crítica como a que mantém no Público é ambíguo, como aliás acontece com muito do que hoje se escreve nos jornais em peças assinadas que misturam factos com opinião. Por se tratar de uma coluna identificada como tal, isso protege a opinião, mas “desprotege” os factos lá referidos em primeira mão. Isso explica o processo da RTP, que Cintra Torres certamente ponderou, como consequência possível do conteúdo da coluna.

Duas observações de passagem, mas relevantes para o “caso”. Uma é que Eduardo Cintra Torres produz uma das raras colunas de comentário sobre a televisão (na realidade é mais do que isso é crítica dos media, o que explica alguns furores) que pode ser chamada de “crítica”. A outra é que nas reacções de alguns jornalistas ao “caso” é claro que não perdoam a Cintra Torres ter colocado em causa não o Governo de Sócrates, mas a muito mais delicada questão das relações dos governos socialistas com a comunicação social. Quando os governos são do PSD e do CDS, as relações com a comunicação social são cuidadosamente escrutinadas e denunciadas, quando os governos são do PS a matéria torna-se sempre explosiva e a exigência de prova, mesmo em textos analíticos, vem sempre à cabeça. Um caso menor pode servir de comparação: a relativa complacência com que o livro de Manuel Maria Carrilho foi recebido, com acusações insubstanciadas muito mais graves do que as que fez Cintra Torres (caso fiquem elas também por provar, o que seria grave).

Sobra o segundo “facto” que aparentemente ninguém quer discutir, remete para uma análise da informação da RTP, repito aqui o que escrevi antes do artigo de Cintra Torres:

O governo tem beneficiado de uma cobertura jornalística que tem minimizado a importância dos incêndios este ano, e consequentemente, não confronta a realidade com o que foi prometido e anunciado. Parte desta situação vem dos compromissos que a comunicação social, em particular as televisões, assumiram quanto à cobertura dos fogos, corrigindo os excessos do ano passado. Mas, como quase sempre acontece, a correcção do excesso foi desequilibrada e neste ano, a não ser os atingidos pelos incêndios, não há percepção pública da gravidade do que se está a passar. Isso ajuda à desresponsabilização do governo e impede o debate sobre a eficácia das suas medidas e sobre o modo como está a reagir à situação, assumindo uma atitude de de muito mau agoiro para o futuro. (no Abrupto)


A governamentalização da informação da RTP (com este e com todos os governos) tem uma raiz de fundo impossível de corrigir sem a sua privatização: o seu carácter de estação “pública” torna-a dependente de orientações governamentais quanto à sua cadeia hierárquica de poder interno e financiamento . Como muitas vezes tenho dito, o mais importante é escolher as pessoas certas para o lugar certo, não dar “instruções “ pelo telefone. E depois há o dinheiro que vem do bolso dos contribuintes e cujas “orientações” de despesa (por exemplo na compra do circo do futebol) têm relevância política.

Acresce depois que a mais ambígua das coisas é aquilo a que se chama "serviço público", nunca claramente definido. Tanto serve para fazer a cobertura menos incómoda para o governo dos incêndios, como de muitas outras matérias, como para produzir simultaneamente alinhamentos no telejornal completamente tablóides (2) (com o argumento que uma televisão que ninguém vê não cumpre com o "serviço público"), como para tratar a agenda governamental com uma deferência particular dando a ministros, secretários de estado, inaugurações e anúncios de obras um lugar privilegiado nos telejonais (3). Etc., etc.

(1) Coloco factos entre aspas não por fazer um julgamento sobre a sua veracidade, mas para me referir a uma categoria jornalística determinada.

(2) Exemplos de ontem: o telejornal das 13 horas abre com uma longa peça sobre a queda de um ultraleve em Cascais, em contraste com o conteúdo noticioso das notícias da SIC (não vi a TVI).

(3) Um exemplo positivo de como um jornalista deve tratar uma inauguração e um anúncio governamental foi a de um jornalista da SIC que apertou Correia de Campos com perguntas sobre medidas que anunciavam uma cobertura da população por médicos de família. Acabou-se por saber que afinal essa cobertura era de um terço dos abrangidos e desse terço apenas um terço iria ser coberto até ao fim do ano, se tudo corresse bem. Passou-se de um anúncio genérico, para um terço de um terço. Mérito do jornalista que não tem o estilo dos telejornais da RTP.

Por fim, JPP escreve um artigo de opinião como eu acho que este deve ser. Sem recurso à transcrição total e seleccionando apenas o conteúdo que lhe origina comentário, referindo a fonte [com ou sem recurso a "link"] e, finalmente, opinando como lhe é próprio: ponto a ponto, preto no branco, pontos nos is, traços nos tês.

A opinião é um direito, senão um dever, e não é reservada a ninguém em particular. Todos devemos ver consagrado o direito ao exercício e publicação de uma opinião, seja acerca do que for. porém, tal não invalida a adopção de alguns códigos que têm mais a ver com o bom senso do que com a ética [essa obscura forma de ditar leis morais].

Resta-me agradecer a José Pacheco Pereira o facto de não notar sequer a presença deste blog e poder assim usurpar-lhe alguns dos textos que por lá [tão bem] publica.

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"Hummm... este blog é muito bom mas não é tão bom como o ABRUPTO" terá dito JPP, aqui citado pelo Senhor Anónimo, provável blogger e conhecido comentarista de blogs, cujas opiniões são geralmente muito bem fundamentadas.
"Ele não conseguiu tirar os olhos do blog e, nessa mesma noite ouviam-se os seus gritos desesperados: QUEM ME DERA A MIM TER UM BLOG ASSIM!!!"
Esta frase rapidamente passou a ser considerada uma classificação estampada em todos os blogs de bom gosto.

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Este blog ostenta orgulhosamente a classificação de:
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